segunda-feira, 6 de abril de 2020

A pandemia e as crises - parte 2

Neste momento o mundo passa por diversas transformações, nem todas agradáveis e que sejam fáceis de lidar, principalmente com algumas consequências que ocorrem por algumas dessas decisões. Dito isto, vamos a algumas considerações.
P.S.: neste texto irei tratar sobre as ações de prevenção contra o coronavírus e o sistema de saúde, ressalto que não é um artigo científico, são basicamente informações que colhi de diversas fontes e agrupei, além de conter alguns comentários pessoais. Caso queira informações mais precisas, busque os artigos científicos que estão sendo disponibilizados pela comunidade científica e os órgãos oficiais - Ministério da Saúde e Secretarias de Saúde - estaduais e/ou municipais.
P.S.2: Como estou escrevendo esse texto após vários dias do início da pandemia no Brasil, pode parecer que é uma previsão sobre o passado - o que não deixa de ser correto -, mas pode servir como aprendizado para futuras pandemias.

A prevenção e o sistema de saúde

A prevenção sempre é a melhor medida, digo isso porque parte da minha formação é em Engenharia de Segurança do Trabalho e aprendi que atuando na prevenção pode-se reduzir os danos e até se preparar para o pior por conhecer os possíveis cenários.
Ao tomar conhecimento da situação de calamidade na China, o governo federal deveria ter iniciado os estudos para coordenar a atuação de combate a pandemia, mas aparentemente não foi essa a atitude. Neste caso temos duas questões, a burocracia que atrapalha medidas preventivas devido a legislação que exige que certos critérios sejam atingidos para decretar os estados de emergência e de calamidade pública e a atuação da OMS, que demorou a reconhecer o problema - não vou entrar no mérito desta demora porque isso demanda um texto próprio sobre relações internacionais e o funcionamento desses órgãos mundiais.
O governo deveria ter tomado medidas preventivas simples como supervisionar quem chegava dos países com casos confirmados, outra medida simples seria organizar listas dos passageiros e registrar se alguém estava com algum sintoma conhecido da COVID-19, até mesmo para monitoramento destas pessoas, mas parece que demoraram a efetivar essas medidas, pois existem relatos de que passageiros vindo de outros países não eram questionados e tão pouco mediam a temperatura para saber se já existia algum doente entre os passageiros que chegavam, e pelos relatos esse descuido ainda ocorreu com o contágio comunitário, isto é, com transmissão dentro do país - é importante destacar que essa medida poderia prevenir casos advindos de outros países, ou seja, que os doentes vindo de fora se tornassem foco de novas contaminações em outras cidades do país.
Como não ocorreu esse controle, os primeiros casos de COVID-19 só foram detectados após muito tempo, onde já deveria ter ocorrido o contágio comunitário. Neste caso os doentes que vieram de fora do país passaram o coronavírus para quem teve contato durante aquele período que comentamos no texto anterior. Sendo que ao entrar em contágio comunitário se faz necessário que se tome outras medidas, que nem sempre são tão preventivas, pois algumas já estariam na fase de mitigação.
Ao existir confirmação de contágio comunitário, deve-se preparar para o pior cenário possível, que nesse caso é o colapso do sistema de saúde. Porém, existem medidas que deveriam ser realizadas para diminuir o contágio comunitário e se preparar para o momento crítico.

Isolamento

Uma das medidas possíveis para reduzir o contágio é o isolamento - o que pode ser entendido como uma situação menos rígida do que a quarentena - e ainda voluntária, entendam que o distanciamento social só pode ser realizado corretamente se as pessoas conseguem respeitar as regras de isolamento. Pois para ocorrer o distanciamento social, não se pode agir como se nada estivesse ocorrendo - e como já sabemos, muitos acharam que a situação não era grave e agiram como se o isolamento fosse um feriado prolongado ou férias.
Bem, o isolamento serve para achatar a curva - você já deve ter visto algum gráfico sobre isso -, mas está medida não acaba com o contágio porque as pessoas ainda tem liberdade para se movimentarem pela cidade.
Outro ponto sobre o isolamento é que este deveria ser utilizado para a preparação de hospitais de campanha - na verdade esses já deveriam ser previstos com a confirmação dos primeiros casos "importados", mas vamos partir do princípio que isso poderia provocar pânico e histeria devido ao desconhecimento das pessoas e o medo que tal medida poderia causar e atrasar a tomada dessa decisão para a confirmação do contágio comunitário -, que deveriam ser usados para os casos leves, ou seja, aqui entra outro ponto muito importante, que é a identificação dos doentes - vou falar sobre isso a frente - e como tratá-los.
Assim, estas estruturas provisórias deveriam servir para abrigar as pessoas que estão transmitindo a doença - e essa transmissão ocorre porque essas pessoas não apresentam uma forma que dificulte de continuar suas atividades - e monitorar a recuperação destas. Mas não foi o caso em vários lugares do mundo, até porque decidiram que casos leves poderiam ser menos prioritários, ignorando que a COVID-19 tem uma alta taxa de contágio e que por volta de 80% dos casos são assintomáticos ou leves - resumindo, esses doentes podem ter contaminando outras pessoas devido a falta de uma medida restritiva de prevenção, veja bem, não estou falando que a culpa é da pessoa, mas que é um erro de tratamento da situação, até porque a probabilidade de ter mais casos graves aumenta proporcionalmente com o número de doentes.

Testes em massa

O teste é uma das formas de confirmar se a pessoa está doente ou não. Contudo temos alguns pontos que devem ser destacados e bem compreendidos.
O primeiro ponto é a taxa de acerto, que varia de acordo com o tipo de teste. Para termos um resultado com uma taxa de acerto satisfatória temos um período em que a pessoa será identificada como caso suspeito, e nesse meio tempo a pessoa pode ficar sem nenhum tratamento - na verdade as pessoas com sintomas leves nem chegaram a ser testadas direito no Brasil, optou-se por testar só os casos moderados e graves que necessitavam de hospitalização, sendo que este foi outro erro, pois se considerarmos que os casos assintomáticos e leves representam 80% dos casos, estas pessoas doentes continuam contaminando outras.
Em algumas cidades os resultados dos testes estão demorando de 7 a 10 dias para serem emitidos, e se lembrarmos que as pessoas só procuram atendimento quando apresentam sintomas, o resultado desta demora acaba por ser a mera confirmação do óbvio para pacientes que tiveram agravamento da doença.
Vejam que este problema com os testes ocorre por alguns motivos, o primeiro é a baixa capacidade dos laboratórios públicos e privados - creio que poucos países estavam realmente preparados para realizar tantos testes em tão pouco tempo e que está capacidade vai diminuindo com o crescente número de testes até que se esgota a possibilidade de testes em massa e passasse a restringir quem será testado, também vale lembrar que isso não é algo passível de mudança rápida, e que para sanar essa dificuldade utiliza-se o teste rápido, falarei dele daqui a pouco -, o segundo problema é a quantidade de kits de testes, que acaba por interferir na decisão de quem será testado - você já deve ter reparado que sou a favor de testes em massa para que os casos assintomáticos e leves fossem tratados, mas infelizmente o Brasil não é um país muito sério, basta ver que em pleno ano de 2020 ainda temos problemas sérios com saneamento básico!
Bem, como comentei, existem os testes rápidos, porém alguns destes testes estão apresentando altas taxas de falso negativo, ou seja, acabam por não identificar os casos de pessoas doentes e se tornam um grande desperdício de recursos - tempo de resposta e tratamento, profissionais que estão ocupados com esses testes e dinheiro.
Portanto, este ponto acaba por interferir em várias outras questões da situação.
Como dito, estou escrevendo esse texto vários dias após o início do contágio comunitário e alguns protocolos para diagnóstico da COVID-19 já estão sendo utilizados por alguns hospitais e o teste só serve para confirmar a doença. Uma das medidas é a realização de uma tomografia computadorizada  com algumas especificações para verificar o comprometimento da saúde causado pela COVID-19 e o início de medicação - não vou entrar nesse mérito porque é algo que cabe aos médicos decidirem, mas talvez escreva,  a parte sobre isso para evitar que este se torne um livro, um texto opinativo sobre alguns pontos, principalmente sobre criar esperança sobre uma só medicação e a necessidade de se encontrar a cura a qualquer custo.

Quarentena

Vou comentar rapidamente sobre essa medida, pois é algo bem mais complexo, mas entenda que o isolamento é uma recomendação de não sair de casa, enquanto que a quarentena é basicamente a proibição das pessoas saírem de suas casas e que para saírem devem ter um motivo e uma autorização das autoridades, e que quem descumprir essa medida pode ser multado e até preso.

Sistema de saúde

Bem, para finalizar esse texto, vamos abordar alguns pontos sobre o sistema de saúde. Basicamente os pontos levantados a seguir poderiam ser resumidos em capacidade de atendimento, o que é crucial em uma pandemia.
O primeiro ponto e mais óbvio é em relação ao número de leitos normais e leitos de UTI preparados e destinados para atender os doentes com COVID-19. E é evidente que o Brasil não tem capacidade de atender todos os doentes da COVID-19, normalmente o SUS já tem déficit de leitos e isso não melhora com uma pandemia, por isso estão montando os hospitais de campanha para tentar ter uma capacidade de atendimento temporária para suprir a alta demanda - novamente, estas estruturas temporárias deveriam servir para isolar casos leves e assim ter ajudado a diminuir o contágio comunitário, não foi o caso e na minha opinião foi um erro de estratégia, mas em algum momento estas estruturas provisórias acabariam sendo utilizadas para atender casos mais graves com a elevação do números de doentes graves e a falta de leitos para estes pacientes na estrutura hospitalar adequada.
O segundo ponto é a falta de equipamentos e suprimentos. O primeiro destaque a ser feito é que já se sabe da necessidade da utilização de respiradores para os casos mais graves. O segundo destaque é que a falta de suprimentos, principalmente de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), acaba por interferir no atendimento. E posso dizer que a falta de EPI pode interferir muito no próximo ponto.
O terceiro ponto é o número de profissionais da área de saúde. Assim como o primeiro, também é de amplo conhecimento o déficit de profissionais em diversos lugares do Brasil - não vou entrar no mérito desse déficit até porque é outro assunto complexo e merece um texto próprio. Porém, como estou escrevendo esse texto muito tempo depois do início, o governo já tomou uma medida sobre isso, o governo convocou diversas classes profissionais que tenham conhecimentos multidisciplinar com a área de saúde. E estes profissionais receberão capacitação e poderão ser convocados para realizar o atendimento dos doentes, mas mesmo assim, talvez faltem profissionais para atender em algumas cidades.
E como disse, a falta de EPI pode interferir no número de profissionais na linha de frente, pois sem os devidos EPI e cuidados, muitos profissionais poderão ser contaminados e deixar de atuarem por se tornarem pacientes - isso ocorreu na Itália e deve ter ocorrido em outros países, e provavelmente ocorrerá no Brasil, mesmo com o governo convocando outros profissionais para auxiliar no tratamento dos doentes.

Bem, espero ter passado os principais pontos sobre prevenção e o sistema de saúde na pandemia e que estes possam colaborar com o entendimento das pessoa para que compreendam a importância do isolamento, ou seja, de permanecerem o maior tempo possível em suas casa para que se evite um caos maior.
Talvez, como cheguei a comentar ao longo desse texto, possa voltar a escrever sobre alguns pontos em textos futuros, mas no próximo texto irei tratar sobre aspectos trabalhistas e econômicos, principalmente para os trabalhadores, pois o cenário e a crise econômica merecem um texto próprio.

Atualização!
Escrevi um post na página do blog no Facebook explicando a questão dos dois gráficos que mostra a questão do achatamento da curva de contágio - com alguns comentários sobre outras situações relacionadas a pandemia -, se quiser ler o texto é só clicar aqui que você será direcionado ao post.

Nenhum comentário:

Postar um comentário